Jorge Luiz Antonio ENTREVISTA MARCELO FRAZÃO (1)

 

O segundo entrevistado para a 6 ªedição de Officina do Pensamento é Marcelo Frazão, do Rio de Janeiro, artista visual, poeta e professor universitário. Participa de mostras coletivas e individuais no Brasil e no exterior, recebeu diversas premiações. Foi curador de muitas exposições, é formado em Gravura pela Escola de Belas Artes da UFRJ, fez pós-graduação lato sensu em Conversação de Bens Culturais Móveis, e é mestre em Ciência da Arte pela Universidade Federal Fluminense.
O artista convive com o poeta de forma harmoniosa. Além de inúmeras obras artísticas, Marcelo é autor de
obras impressas:
Loveless (1995, co-autoria com Armando Freitas Filho)
Concerto para Violoncelo e Ruído nº 1 (1995, co-autoria com Vivian Mara)
Haikai (1996 - com Kazuo Iha)
Anima Animalis (1998 - 2008, co-autoria com Olga Savary)
Erótica (1999, co-autoria com Armando Freitas Filho)
Homo Sapiens Sexualis (2001 - com Paulo Villela)
e de obras eletrônicas -
Portfólio - www.ateliervillaolivia.com/mf
TEMPO: uma experiencia em Web Poesia - inicialmente publicado em: www.web_poesia.kit.net
Ensaio Fotográfico sobre o Centro do Rio - inicialmente publicado em: http://br.geocities.com/ocentrodomeurio
Atelier Villa Olívia - www.ateliervillaolivia.com


Jorge Luiz Antonio - Nós nos conhecemos via Internet e isso me faz lembrar uma expressão de Machado de Assis, através de um dos seus personagens, que diz conhecer alguém de vista e de chapéu. Nós, então, nos conhecemos de emails e de algumas fotografias.
Por isso, peço-lhe, primeiramente, que você fale um pouco de sua pessoa, apresente seus dados biográficos de forma compacta.

Marcelo Frazão - Jorge, acho incrível a possibilidade de conhecer pessoas através da rede - brinco sempre com um amigo que isto parece telepatia lusitana!

JLA - Acabei de me lembrar de outra forma de conhecimento que a tecnologia nos permite. Em nosso trabalho, conversamos muito por telefone, e, com determinadas pessoas, a simpatia é tanta que acabamos amigos. Assim, também podemos dizer que conhecemos determinada pessoa de "ouvido".

MF - Isto é muito interessante, é assunto que como dizia minha vó: dá pano para as mangas!
Bom, terminei recentemente o Mestrado em Ciência da Arte na Universidade Federal Fluminense, sou graduado em Gravura com pós-graduação pela Escola de Belas Artes da UFRJ. Além da minha formação acadêmica, na área de Artes Visuais, tenho o hábito de escrever. Tenho dois livros de poesias publicados - Haikai, com ilustrações de Kazuo Iha e prefácio de Olga Savary, e Homo Sapiens Sexualis, poesias eróticas, com desenho de Paulo Villela e prefácio de Álvaro de Sá e orelhas de Carlito Azevedo.

JLA - Desculpe-me a interrupção, mas quero dizer que conheço alguns haikais do seu primeiro livro, pois você o divulgou no grupo eletrônico Fronteiras, não foi?

MF - É verdade, alguns foram utilizados pela Regina Célia Pinto para trabalhos na web, o que muito me lisonjeia.

JLA - O primeiro livro tem o prefácio de Olga Savary, e o segundo vem com prefácio de Álvaro de Sá e orelha de Carlito Azevedo. Isso é muito bom. Os ilustradores - Kazuo Iha e Paulo Villela - completam a maravilhosa equipe de padrinhos.

MF - Puxa, não posso me queixar. Falta fazer agora um trabalho na web em parceria com a Regina, não algo como a revista, um trabalho mais poético, como os livros que ela vem fazendo, que são maravilhosos!!
Gosto de fazer um pouco de tudo, meu espírito é muito inquieto e preciso estar sempre pesquisando, seja na minha área ou na área dos outros - embora escritores não vejam, com bons olhos, artistas metidos em seus domínios. Geralmente temos a tendência a ser preconceituosos.
Considero-me afortunado, pois consigo viver da profissão que escolhi - Artes Plásticas - seja como artista, curador de exposições ou professor na Universidade ou no meu atelier. Participo ativamente de mostras coletivas e individuais no Brasil e no Exterior, recebendo diversas premiações.

JLA - Isso prova, na verdade, sua competência nas artes da palavra e da visualidade e, agora, da digitalidade.

MF - Filho temporão de pais fantásticos, tive uma infância e adolescência normais. Classe média, sempre estudei em bons colégios particulares e sempre fui bom aluno, mais por insistência do que vocação. Lembro-me, com muito carinho, de uma professora de Português, Dona Nadir Feijó, que sempre me incentivou a escrever.

JLA - Não estou puxando a brasa para a minha sardinha, porque também sou professor de Língua Portuguesa, mas como é bom ter um professor que nos incentiva a escrever.
Lembro-me, também, do primeiro professor que incentivou: ele se chamava Cid Rocha, era poeta.
Aproveito para lembrar que, infelizmente, no Curso de Letras, pasme, não se ensina a escrever poesia e prosa de ficção no Brasil. Existem grupos de estudos e oficinas literárias, alguns concursos literários, tudo muito esparso, que ajuda muito pouco. O mesmo não ocorre nos outros cursos artísticos, como Artes Visuais, Teatro, Escultura, Gravura, etc.

MF - Concordo com você, Jorge, às vezes acho isso uma falha, em outras me contento com uma coisa que ouvi nos meus tempos de estudante na Belas Artes. Estávamos tomando um café e chegou o prof. Bandeira de Melo. Conversa vai, conversa vem, ele soltou esta pérola: "Fazer arte é como jogar futebol, todo mundo joga, mas só 11 vão para seleção!". Hoje, como professor, sinto a dificuldade dos alunos com coisas bem simples - então naquela onda de pensamento positivo, acho melhor pensar que estou jogando sementes no campo, e torcendo para que o solo esteja fértil…

Sou o único artista da família, no começo foi complicado, queriam que eu fosse médico. Cheguei a fazer 4 anos de arquitetura, tranquei e joguei a chave fora - antes tarde do que nunca! Depois que começam a sair reportagens nos jornais, principalmente a recente matéria de capa do Jornal do Brasil, agora todos gostam.

JLA - É difícil prever resultados, e isso é um problema sempre. Lembro-me da biografia de Balzac, que foi patrocinado para a família, mas os primeiros resultados foram avaliados por um professor de Literatura da província dele, que não tinha bola de cristal, nem era crítico literário de talento. Resultado: perdeu o apoio da família e teve que fazer tudo sozinho.
Mudando de assunto: quais autores e artistas podem ser considerados como influenciadores de sua arte e da sua poesia?

MF - Existe sempre uma influência ou referência no processo de criação. Nas artes plásticas, o trabalho de Iberê Camargo e Carlos Scliar (falando em arte brasileira), que tive a oportunidade de conhecer, e de Adir Botelho e Kazuo Iha, grandes mestres com quem tive o prazer de trabalhar: eles serviram-me de base formal e técnica para criar minha linguagem.
Uma vez conversando com Scliar, ele me disse: "Você é um soturno, como Iberê, eu sou um solar; não desista, filhotinho, o caminho é bastante árduo." E então eu o surpreendi com minha própria resposta: "Scliar, eu não tenho intenção de parar, não que o mundo vá perder alguma coisa, mas eu vou!".
Na poesia, Armando Freitas Filho, que, acho, traduz em suas palavras o clima das minhas gravuras e com quem fiz dois trabalhos em parceria.
A influência vem do gostar e de admirar a obra e desse processo sai o combustível para a nossa criação.
Gostaria de ser um escritor profissional, mas tenho vivido de artes plásticas, onde me profissionalizei. Mas não posso me queixar, tenho dois livros de poesias lançados (ambos esgotados) e mais alguns na gaveta, esperando editora. Poesia no Brasil é difícil.
Exponho regularmente desde a década de 80 com participações em mostras no Brasil e no exterior, recebi diversas premiações. Trabalho também como professor e faço curadorias de exposições desde 96.
Quanto ao meu lado literário, considero-me autodidata, nunca fiz curso ou oficina. Sempre gostei muito de ler e de contar estórias. Com o tempo, aprendemos a mentir e chamamos isso de ficção - quanto melhor a mentira... melhor a ficção!
No meu trabalho, o desenho se materializa através da forma. Foi deste modo, através de experiências, que cheguei a uma maneira pessoal de representar minhas emoções e percepção do mundo. Deste modo, simplificando a forma, chegando ao seu mínimo e por vezes à abstração, dou a ela um novo sentido, sentido este que cada observador decodifica de acordo com sua percepção do mundo. Assim, minha idéia se transforma em novas idéias, novas sensações. Junto a esse caminho segue outro paralelo, o da literatura, que, talvez pela minha formação em artes plásticas, faça com que o que escrevo seja muito visual, embora sejam estados de espírito diferentes. O curioso é que escrevo desde os 7 anos (poesias e contos), muito antes de trabalhar com artes plásticas.

JLA - Nossa geração vive entre o mundo impresso e o eletrônico. Gostaria que você falasse sobre a sua iniciação no mundo do computador, da Internet e da Web, de um modo geral, e das suas experiências na arte e na poesia nos meios eletrônico-digitais.

Minha introdução mais artística no mundo virtual foi graças à amiga e gurua (como a chamo carinhosamente), a artista Regina Célia Pinto. As experiências que hoje realizo com meus sites vêm do incentivo da Regina.

JLA - Você tem razão, Regina é uma grande incentivadora, boa artista, sabe trabalhar em equipe.

MF - Em 1996 tínhamos um grupo. Éramos seis artistas que também trabalhavam com o virtual. O grupo se chamava ouanarte (que vem do binômio 0/1). O grupo existiu durante um tempo e chegamos a fazer um LUAL DIGITAL e uma mostra reunindo artistas de vários países como França, Portugal, Argentina e diversos Estados brasileiros. Nossa idéia era soltarmos no mundo, em disquetes e e-mails, uma imagem de cada um. Esta imagem deveria ser modificada e impressa uma cópia (que foi enviada para a mostra) e passada adiante para outros alterarem a forma já alterada. O resultado foi surpreendente e, para a época, acredito que pioneiro. Não conseguimos muito espaço na mídia mas a exposição está guardada (prints formato A4).

JLA - Com Regina Célia Pinto e Paulo Villela, quando vocês editavam a revista Arte on Line - foi nesse período que entrei em contato com vocês -, vocês produziram o Projeto Fronteiras / Boundaries Project (http://arteonline.arq.br/arteonline3/projeto.htm), um ensaio no meio digital, com muitas fotos e textos. Vocês mapearam boa parte do centro histórico do Rio de Janeiro e estabeleceram interessantes relações e produziram bons textos. Gostaria que você falasse um pouco dessa experiência.

MF - Jorge, trabalhar com Regina e com o Paulo é muito enriquecedor. Fazer a revista foi muito divertido, prazeroso, daí talvez o motivo de sua qualidade. Fizemos porque acreditávamos, principalmente a Regina que sempre digo, me puxou!! Só tenho agradecimentos e carinho para com os dois que são grandes amigos. No mais é acessar a revista e comprovar o material.

JLA - Você é formado em Artes e também se dedica à poesia. Como é a relação entre arte e poesia para você? A arte contamina a poesia ou vice-versa?

MF - Acredito que essa eterna contaminação é a mola propulsora para meu processo de criação. É como andar. Minha ultima mostra, no Museu Nacional de Belas Artes, Réquiem, misturei foto digital, gravura, encáustica têmpera e folha de ouro, para realizar os trabalhos - 14 obras, uma para cada movimento do réquiem de Mozart, ou seja, música. Minha intenção não foi ilustrar Mozart, mas captar as sensações sonoras e transformá-las em sensações visuais, sem esquecer a poesia, em latim, que é a missa.
No caso do site do TEMPO (www.web_poesia.kit.net) acontece também isto. A diferença é que as imagens não são 100% minhas, entram como um apoio para o texto (que chamo de fábula contemporânea) e o som complementa a idéia - como uma trilha sonora. Escrevi esse texto ano no passado e senti vontade de fazer alguma coisa com ele. Como é bem visual, resolvi partir para essa experiência.

JLA - Você trabalhou na Galeria SESC Copacabana e foi curador de muitas exposições. Quando elaborava a resenha de "O Branco e o Negro", cd-rom de Regina Célia Pinto, entrei em contato com o catálogo Poemas Visitados versão preto & branco (1999/2000). Não fui à exposição, mas o catálogo e o texto de apresentação me parecem uma tentativa de fusão da arte e da poesia. Estou certo em linhas gerais?

MF - A poesia e as imagens sempre andaram juntas desde a Idade Média. Depois se separaram. Na verdade não me sinto no direito de dizer que estou fundindo nada, elas já foram fundidas há muito tempo antes de eu existir - acho que seria muita pretensão assumir essa fusão. Talvez a palavra resgate seja mais apropriada. Essa mostra foi a segunda, a versão em preto e branco - anos antes tinha feito a curadoria de outros poemas em versão technicolor, com a participação de Scliar, Ana Letícia, Glauco Rodrigues, Marília Rodrigues, Adir Botelho, Kazuo Iha, Paulo Villela, Clara Arthaud, Amador Perez ... foram 30 artistas! Na versão PB foram 80!
Acredito que esse meu processo de trabalho - misturar as coisas - encontra um solo fértil quando utilizo a web como técnica. Veja bem, eu disse técnica, suporte, pois muita gente acha e utiliza o computador como uma ferramenta, sem saber as possibilidades ou limites e acaba tentando imitar as técnicas tradicionais.

JLA - Fiquei sabendo que você tem algumas obras inéditas: Dicionário dos gravadores brasileiros (pesquisa do séc XVIII a 2000.), Tratado da Solidão - em 17 fatias e duas migalhas, e O diário de Padre Ângelo (romance biográfico). Pode falar um pouco sobre esses trabalhos?

MF - Puxa, você anda bem informado!!! Vamos lá. A idéia do dicionário surgiu quando eu estava fazendo minha pós na UFRJ. Meu estudo era sobre Adir Botelho. Comecei minha pesquisa e, num dicionário de Arte, que não me recordo qual, no verbete de algum artista, vinha escrito: "estudou com Adir Botelho na UFRJ", mas não tinha um verbete para o Adir. Procurei por outros gravadores e não encontrei, havia serígrafos sendo chamados de gravadores, mas a parte de gravura era muito fraca. Somente artistas que também pintavam ou tinha uma mídia muito forte estavam lá. Então me veio a idéia de fazer um dicionário de gravadores brasileiros, e estrangeiros que moraram ou lecionaram no país. Está pronto esperando uma editora!!

O tratado da solidão é um livro de contos. São 17 e dois bem pequenos. Como o tema diz, falo sobre a solidão e misturo um pouco de erostimo e questionamentos nele. Tem um lado engraçado e o lado triste da solidão quando não é voluntária.

O Diário do Padre Ângelo é um romance histórico que se passa no Brasil no séc. XVI. Existem cartas de Anchieta para Ângelo, cartas que na verdade nunca chegaram a existir - feitas a partir dos sermões. Aqui também tem muito erotismo e descreve um lado bem feio do ser humano, esteja ele no mundo religioso ou não. Depois Ângelo se encontra com irmão que também é religiosa… bem não vou contar toda a história senão perde a graça se for lançado um dia.

Atualmente estou trabalhando num projeto que se chama O RIO PASSADO A PRETO E BRANCO, com mais 23 artistas. È uma exposição e lançamento de um livro postal com reprodução dos 24 trabalhos, que funcionará como o catálogo da mostra.
E uma novidade: estou transformando minha pesquisa de mestrado em um ensaio que pretendo editar em breve. O assunto é a morte, tema de minha ultima exposição , este ano, no Museu Nacional de Belas Artes: o título provisório é Réquiem.

JLA - Nosso papo foi muito proveitoso, e eu espero que os e-leitores de Officina do Pensamento também estejam gostando. Agradeço a sua disponibilidade e desejo-lhe sucesso nas suas atividades.

MF - Jorge, agradeço imensamente o convite. Um grande abraço.


Nota:
(1) Essa entrevista foi publicada sob o título "EntreVistas: Marcelo Frazão por Jorge Luiz Antonio", na revista eletrônica Officina do Pensamento (São Paulo, nº 6, 17 jun. 2003) e esteve disponível em: <http://www.officinadopensamento.com.br/arquivos/entre-vistas/entre-vistas_marcelo_frazao.htm>.