| Jorge Luiz Antonio ENTREVISTA MARCELO FRAZÃO (1) |
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JLA - Acabei de me lembrar de outra forma de conhecimento que a tecnologia nos permite. Em nosso trabalho, conversamos muito por telefone, e, com determinadas pessoas, a simpatia é tanta que acabamos amigos. Assim, também podemos dizer que conhecemos determinada pessoa de "ouvido". MF
- Isto é muito interessante, é assunto que como dizia minha
vó: dá pano para as mangas! JLA - Desculpe-me a interrupção, mas quero dizer que conheço alguns haikais do seu primeiro livro, pois você o divulgou no grupo eletrônico Fronteiras, não foi? MF - É verdade, alguns foram utilizados pela Regina Célia Pinto para trabalhos na web, o que muito me lisonjeia. JLA - O primeiro livro tem o prefácio de Olga Savary, e o segundo vem com prefácio de Álvaro de Sá e orelha de Carlito Azevedo. Isso é muito bom. Os ilustradores - Kazuo Iha e Paulo Villela - completam a maravilhosa equipe de padrinhos. MF
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Puxa, não posso me queixar. Falta fazer agora um trabalho na web
em parceria com a Regina, não algo como a revista, um trabalho
mais poético, como os livros que ela vem fazendo, que são
maravilhosos!! JLA - Isso prova, na verdade, sua competência nas artes da palavra e da visualidade e, agora, da digitalidade. MF - Filho temporão de pais fantásticos, tive uma infância e adolescência normais. Classe média, sempre estudei em bons colégios particulares e sempre fui bom aluno, mais por insistência do que vocação. Lembro-me, com muito carinho, de uma professora de Português, Dona Nadir Feijó, que sempre me incentivou a escrever. JLA
- Não estou puxando a brasa para a minha sardinha, porque também
sou professor de Língua Portuguesa, mas como é bom ter um
professor que nos incentiva a escrever. MF - Concordo com você, Jorge, às vezes acho isso uma falha, em outras me contento com uma coisa que ouvi nos meus tempos de estudante na Belas Artes. Estávamos tomando um café e chegou o prof. Bandeira de Melo. Conversa vai, conversa vem, ele soltou esta pérola: "Fazer arte é como jogar futebol, todo mundo joga, mas só 11 vão para seleção!". Hoje, como professor, sinto a dificuldade dos alunos com coisas bem simples - então naquela onda de pensamento positivo, acho melhor pensar que estou jogando sementes no campo, e torcendo para que o solo esteja fértil Sou o único artista da família, no começo foi complicado, queriam que eu fosse médico. Cheguei a fazer 4 anos de arquitetura, tranquei e joguei a chave fora - antes tarde do que nunca! Depois que começam a sair reportagens nos jornais, principalmente a recente matéria de capa do Jornal do Brasil, agora todos gostam. JLA
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É difícil prever resultados, e isso é um problema
sempre. Lembro-me da biografia de Balzac, que foi patrocinado para a família,
mas os primeiros resultados foram avaliados por um professor de Literatura
da província dele, que não tinha bola de cristal, nem era
crítico literário de talento. Resultado: perdeu o apoio
da família e teve que fazer tudo sozinho. MF
- Existe sempre uma influência ou referência no processo de
criação. Nas artes plásticas, o trabalho de Iberê
Camargo e Carlos Scliar (falando em arte brasileira), que tive a oportunidade
de conhecer, e de Adir Botelho e Kazuo Iha, grandes mestres com quem tive
o prazer de trabalhar: eles serviram-me de base formal e técnica
para criar minha linguagem. Minha introdução mais artística no mundo virtual foi graças à amiga e gurua (como a chamo carinhosamente), a artista Regina Célia Pinto. As experiências que hoje realizo com meus sites vêm do incentivo da Regina. JLA - Você tem razão, Regina é uma grande incentivadora, boa artista, sabe trabalhar em equipe. MF - Em 1996 tínhamos um grupo. Éramos seis artistas que também trabalhavam com o virtual. O grupo se chamava ouanarte (que vem do binômio 0/1). O grupo existiu durante um tempo e chegamos a fazer um LUAL DIGITAL e uma mostra reunindo artistas de vários países como França, Portugal, Argentina e diversos Estados brasileiros. Nossa idéia era soltarmos no mundo, em disquetes e e-mails, uma imagem de cada um. Esta imagem deveria ser modificada e impressa uma cópia (que foi enviada para a mostra) e passada adiante para outros alterarem a forma já alterada. O resultado foi surpreendente e, para a época, acredito que pioneiro. Não conseguimos muito espaço na mídia mas a exposição está guardada (prints formato A4). JLA - Com Regina Célia Pinto e Paulo Villela, quando vocês editavam a revista Arte on Line - foi nesse período que entrei em contato com vocês -, vocês produziram o Projeto Fronteiras / Boundaries Project (http://arteonline.arq.br/arteonline3/projeto.htm), um ensaio no meio digital, com muitas fotos e textos. Vocês mapearam boa parte do centro histórico do Rio de Janeiro e estabeleceram interessantes relações e produziram bons textos. Gostaria que você falasse um pouco dessa experiência. MF - Jorge, trabalhar com Regina e com o Paulo é muito enriquecedor. Fazer a revista foi muito divertido, prazeroso, daí talvez o motivo de sua qualidade. Fizemos porque acreditávamos, principalmente a Regina que sempre digo, me puxou!! Só tenho agradecimentos e carinho para com os dois que são grandes amigos. No mais é acessar a revista e comprovar o material. JLA - Você é formado em Artes e também se dedica à poesia. Como é a relação entre arte e poesia para você? A arte contamina a poesia ou vice-versa? MF
- Acredito que essa eterna contaminação é a mola
propulsora para meu processo de criação. É como andar.
Minha ultima mostra, no Museu Nacional de Belas Artes, Réquiem,
misturei foto digital, gravura, encáustica têmpera e folha
de ouro, para realizar os trabalhos - 14 obras, uma para cada movimento
do réquiem de Mozart, ou seja, música. Minha intenção
não foi ilustrar Mozart, mas captar as sensações
sonoras e transformá-las em sensações visuais, sem
esquecer a poesia, em latim, que é a missa. JLA - Você trabalhou na Galeria SESC Copacabana e foi curador de muitas exposições. Quando elaborava a resenha de "O Branco e o Negro", cd-rom de Regina Célia Pinto, entrei em contato com o catálogo Poemas Visitados versão preto & branco (1999/2000). Não fui à exposição, mas o catálogo e o texto de apresentação me parecem uma tentativa de fusão da arte e da poesia. Estou certo em linhas gerais? MF
- A poesia e as imagens sempre andaram juntas desde a Idade Média.
Depois se separaram. Na verdade não me sinto no direito de dizer
que estou fundindo nada, elas já foram fundidas há muito
tempo antes de eu existir - acho que seria muita pretensão assumir
essa fusão. Talvez a palavra resgate seja mais apropriada. Essa
mostra foi a segunda, a versão em preto e branco - anos antes tinha
feito a curadoria de outros poemas em versão technicolor, com a
participação de Scliar, Ana Letícia, Glauco Rodrigues,
Marília Rodrigues, Adir Botelho, Kazuo Iha, Paulo Villela, Clara
Arthaud, Amador Perez ... foram 30 artistas! Na versão PB foram
80! JLA - Fiquei sabendo que você tem algumas obras inéditas: Dicionário dos gravadores brasileiros (pesquisa do séc XVIII a 2000.), Tratado da Solidão - em 17 fatias e duas migalhas, e O diário de Padre Ângelo (romance biográfico). Pode falar um pouco sobre esses trabalhos? MF - Puxa, você anda bem informado!!! Vamos lá. A idéia do dicionário surgiu quando eu estava fazendo minha pós na UFRJ. Meu estudo era sobre Adir Botelho. Comecei minha pesquisa e, num dicionário de Arte, que não me recordo qual, no verbete de algum artista, vinha escrito: "estudou com Adir Botelho na UFRJ", mas não tinha um verbete para o Adir. Procurei por outros gravadores e não encontrei, havia serígrafos sendo chamados de gravadores, mas a parte de gravura era muito fraca. Somente artistas que também pintavam ou tinha uma mídia muito forte estavam lá. Então me veio a idéia de fazer um dicionário de gravadores brasileiros, e estrangeiros que moraram ou lecionaram no país. Está pronto esperando uma editora!! O tratado da solidão é um livro de contos. São 17 e dois bem pequenos. Como o tema diz, falo sobre a solidão e misturo um pouco de erostimo e questionamentos nele. Tem um lado engraçado e o lado triste da solidão quando não é voluntária. O Diário do Padre Ângelo é um romance histórico que se passa no Brasil no séc. XVI. Existem cartas de Anchieta para Ângelo, cartas que na verdade nunca chegaram a existir - feitas a partir dos sermões. Aqui também tem muito erotismo e descreve um lado bem feio do ser humano, esteja ele no mundo religioso ou não. Depois Ângelo se encontra com irmão que também é religiosa bem não vou contar toda a história senão perde a graça se for lançado um dia. Atualmente
estou trabalhando num projeto que se chama O RIO PASSADO A PRETO E BRANCO,
com mais 23 artistas. È uma exposição e lançamento
de um livro postal com reprodução dos 24 trabalhos, que
funcionará como o catálogo da mostra. JLA - Nosso papo foi muito proveitoso, e eu espero que os e-leitores de Officina do Pensamento também estejam gostando. Agradeço a sua disponibilidade e desejo-lhe sucesso nas suas atividades. MF - Jorge, agradeço imensamente o convite. Um grande abraço.
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