OBJETOS LITURGICOS
o místico ritual da arte


.......A arte de Marcelo Frazão possui uma trajetória que percorre a gravura, vivencia a pintura, se detém nas técnicas mistas, se apropria das suas possibilidades e descobre o objeto como arte total. Nesta mostra eles são adjetivados pela qualificação de "litúrgicos". Do grego, "leitourgikós", a palavra remete ao culto público e oficial da igreja, um ritual de celebração que é repetido em seus significados, alimentado na sua própria história pela memória que o constrói. As obras criadas pelo artista pertencem à classe dos objetos, e não se lhes podem atribuir categorias. Não são pinturas, apesar da presença da cor, do uso de têmperas e da encáustica, técnica com a qual artistas notáveis construíram suas obras e seus nomes. Elas também não são esculturas, uma vez que os procedimentos subtrativos, onde o escalpo retira a matéria para desvelar a forma, e os aditivos, onde a matéria é acrescentada pela mão que a modela, para que ela surja como obra, não estão presentes. Marcelo opera pela reificação, ou seja, ele instaura a característica da "coisa", uma vez que seus objetos pertencem a uma realidade objetiva, e eles estão diante de nós, repletos de significados, no místico ritual da arte.

.......Como objetos litúrgicos eles pertencem a um ritual particular, proposto pelo artista, que celebra a sua própria vida, através da superposição das memórias de vários tempos, de amigos e familiares, de pessoas que, de alguma forma, se constituem na sua celebração e da qual resultam como criação, seus objetos litúrgicos. Ele opera tanto na bidimensionalidade como na tridimensionalidade. Há quadros que são objetos, inseridos em propostas semelhantes a eles, que surgem como assemblages, mas todos se realizam em plena sintonia, uns com os outros, conferindo unidade à exposição.

.......O artista trabalha com diferentes materiais, da folha de ouro à chapinha da cerveja. O sagrado e o profano, a alma e o corpo, uma totalidade revelada por um viés particular, íntimo e exterior ao mesmo tempo. A carga expressionista se manifesta formalmente, mas não impede a revelação do universo simbólico de Marcelo. Há uma dor que grita através da matéria, e um sorriso que se abre, compartilhando seus segredos.

.......Ele se alinha às fileiras do expressionismo ao fazer coro com Kasimir Edschmid que, em discurso proferido à Liga dos Cientistas e Artistas Alemães em 1917, proclamara o primado da força interior do homem, capaz de ditar ao mundo exterior o "ritmo perpétuo do espírito comovido". É proclamando a interioridade que se aproxima das crenças superiores, como fizeram os expressionistas alemães das Vanguardas Históricas, que não buscavam o poder, mas o amor dos homens e da natureza. A única lei que os comandava era o espírito comovido, lei que ainda vigora em Marcelo Frazão, como atestam suas obras.

.......A revelação do universo simbólico se dá pelo caminho de Aurier, quando, no final do século XIX, afirmava que a suprema arte só poderia ser "ideísta", em oposição à realista, uma vez que acreditava ser a Idéia a manifestação mais elevada e divina que o homem poderia experimentar em relação ao mundo. Para ele era necessário dominar os símbolos, pois os objetos eram aparências reveladoras das idéias e, consequentemente, só teriam importância "enquanto signos de Idéias".

.......Os objetos de Marcelo Frazão são ideístas na medida em que a prioridade expressa é a da exteriorização de idéias, e simbólicos, porque as idéias se revelam por meio de formas sígnicas. Eles pertencem a duas materialidades. A primeira é bidimensional. Neste caso os objetos ganham o formato de quadros, nas dimensões de 1.10m x 0.80m, sem privilégios para amigos ou familiares. Todos recebem o mesmo espaço nas superfícies que serão recobertas de imagens sígnicas, reveladoras de idéias de amizade, amor filial e companheirismo. A segunda é tridimensional. Nesta, a construção do objeto se faz através de cubos, formas perfeitas que se revestem de significados, ou, ainda de outras formas, simplesmente, que se associam para revelar significados.

.......As obras expressam uma mensagem que se repete, vestida de rostos familiares e fraternos, remetendo a uma religiosidade singular, onde o artista se religa, misticamente, ao sobrenatural. Ele ritualiza sua participação de modo a se fazer presente, como um sacerdote, que possui autoridade ao dirigir a cerimônia.

......."O Beijo" é um auto-retrato. Apesar da presença do outro, sem o qual o beijo não teria sentido, o que se observa é que a idéia do ósculo se confirma sem o toque dos corpos. Estes levitam horizontalmente, vazios de peso matérico, dispostos como figuras de baralho, acima e abaixo. O fundo, em encáustica laranja, revela a topografia da cera quente que adere à superfície. O caráter decorativo e místico é garantido pela cor de ouro, pelas folhas da Bíblia que constituem a base dos rostos, onde o tom de pele carnal, superposto, não nos impede a leitura de fragmentos de Salmos. Marcelo utiliza uma trama vermelha sobre fundo verde, cores de mesmo peso que duelam e nos atraem, não permitindo a dispersão mística total. Elementos colados sobre a superfície podem ser identificados como parafusos, dentes, medalhão, enfim, matéria física, composta de elementos díspares, que se articula numa textura decorativa homogênea e convoca o fruidor à contemplação de um quadro, na verdade, um objeto que possui corpo e alma.

.......O "Judas" repercute a discussão do autor. Virtude e pecado, doação e traição, sentimentos opostos que nos olham através do iníquo, de olhos desmesurados pela ambição ou pelo desespero do traidor, de boca aberta, dentes expostos, no grito que revela remorso e não arrependimento. Há um coroamento em sua cabeça, antítese de auréola, resquício do discípulo acusador. Marcelo utiliza chapinhas de cerveja, abertas, aplainadas, juntamente com facas finas e compridas para produzir os raios. No fundo de encáustica verde o dripping vermelho mancha a superfície do objeto. O artista utiliza alguns elementos iconográficos como pomba, corações, crucifixos e o pequeno boneco suspenso, solto e perdido, alusão ao fim de Judas. Tudo é forte, sutil, repleto de metáforas e revelado por meio de técnica segura e de grande sensibilidade artística.

......."Nossa Senhora" materializa-se em Carmen Frazão, a mãe do artista. Como Rembrandt, que pintou sua mãe na figura da profetisa Hannah lendo a Bíblia, Marcelo elege uma Nossa Senhora para dar corpo à sua Carmen. Também como o pintor holandês ele não buscou na memória uma imagem mais rejuvenescida de mãe, antes procurou aquela que recendia ao trabalho do tempo, o escultor das formas verdadeiras, que opera nas aparências para revelar a essência. De auréola dourada, obtida pela colagem de garfinhos, e mantilha preta, sevilhana, observa-se em seu rosto uma expressão de bondade. A roupa laranja ilumina o quadro, o ouro ressalta a realeza da figura que, de mãos abertas, espalmadas, parece querer abraçar a todos que se aproximam. O missal colado sobre fundo azul, o retrato em pequena moldura oval, são testemunhas silenciosas da vida de Carmen. O quadro é executado em técnica mista, onde a encáustica, a têmpera, as colagens e o uso da folha de ouro, se associam num decorativismo repleto de significados.

......."Mandala" é o diagrama de círculos e quadrados, em cujo centro a figura do artista Kazuo Iha surge, do passado para o presente, a nos olhar com determinação. A mandala é símbolo de diferentes culturas e épocas, caminho labiríntico que busca a unidade do ser. Ela suscita a meditação. A "mandala" de Marcelo Frazão é construída com chapinhas coloridas, azuis, cinzas, prateadas, douradas, rosas, roxas, laranjas, amarelas, vermelhas e verdes, semelhante a um crochê, pela leveza com que foi realizada. É simbólica, não apenas pelo seu significado, mas pela articulação dos elementos, pelo uso da cor e pelo jogo que faz ao colocar, no centro da mandala, o retrato de Kazuo, aspecto chave da personalidade iluminada. Neste objeto as técnicas se associam, como nos outros, com o uso da têmpera, da folha de ouro, da colagem e da encáustica.

.......Como complemento do retrato de Kazuo, na Mandala, Marcelo realiza uma "Nossa Senhora dos Remédios", trabalhada na mesma técnica, onde se inspira em Denise Vieira. O rosto expressivo nos traz à mente as reflexões de Koskoschka, quando, ao procurar explicar a consciência das visões, ele afirma que "a consciência é a causa de todas as coisas, até dos conceitos. Ela é um mar cujo horizonte são as visões!" É neste mar que Marcelo procura estabelecer seus conceitos, provocar seus sentimentos, rever seu passado e, no horizonte deste mar nos trazer suas visões. Ele sacraliza suas figuras com elementos singulares, como o ornato na cabeça de Denise, feito com paletas de leque, que seriam jogadas no lixo e que se tornam a matéria prima de seus diademas, colar e coroas, auréolas e elementos que remetem ao luxo. As colheres , uma delas aparafusada, se associam à trama da superfície do quadro, juntamente com pequenos bonecos colados, compassadamente, simulacros de bebês ocultos na encáustica, como a maternidade que se oculta em cada interior feminino.

......."São Pedro" é Periandro Azevedo, visto de perfil, de semblante austero e olhar bondoso, impulsivo e terno, abrigando na metade do rosto a totalidade de sentimentos antitéticos. Sua auréola é construída com chaves trabalhadas, referência simbólica às funções que lhes são atribuídas pela tradição da igreja. Sobre o fundo, pequenos elementos aderem à superfície, como pontos de luz no fundo azul de encáustica. Na realidade, são pequenas molduras de fechaduras, reforçando o significado das chaves. No rosto e no corpo a base de papel bíblico deixa transparecer trechos de Salmos e fragmentos da epístola de S. Pedro. Há ornatos especiais, como a pequenina pia batismal, símbolo do nascimento na água, enfim elementos que se conjugam aos bonecos, às chaves e fechaduras e são harmonizados pela técnica pictórica, pelo domínio da encáustica e pelo vigor da têmpera.

.......Regina Célia Pinto empresta seu rosto para Santa Clara. A cruz e o terço estruturam no fundo cinza da encáustica, os elementos simbólicos de referência afetiva que se interligam na liturgia de Marcelo Frazão. Mas não é só no plano que ela se estabelece. Na tridimensionalidade o imaginário do artista se potencializa. Seus cubos litúrgicos recebem diferentes nomes: das devoções, de Eros e dos elementos, das perdas e labirintos, sem contar com o Objeto Litúrgico das Invenções Humanas e os objetos que transitam na direção de tornarem-se litúrgicos...

.......No espaço, seus cubos multiplicam as possibilidades de intervenção do artista, já que, as seis faces permitem o desdobramento da superfície do quadro. Além disso, neles está presente o dentro e o fora, o compacto e o vasado, bem como a possibilidade táctil, uma vez que se oferece ao toque, além de permitir a associação de elementos sonoros, na direção de uma arte total.

.......Assim, o que se pode contemplar nas faces de seus cubos são os desdobramentos de uma dada discussão, mística e filosófica, essencialmente artística, que incorpora o componente litúrgico através de um mesmo ritual, já iniciado na peregrinação do observador, de quadro em quadro. Aliás, é neles que se dá a "iniciação", capaz de permitir ao fruidor acompanhar o ritual proposto por Marcelo Frazão, participando dele, de alguma forma.

.......A encáustica continua sendo a técnica que permeia a realização de sua obra poética, em que o artista mistura o pigmento desejado à cera aquecida, que, liquefeita, é aplicada à superfície. Esta se texturiza, adquire topografias baixas, e, sendo de rápida secagem, retém o efeito desejado, imobilizando o gesto e congelando a temporalidade da ação numa quase eternidade.

.......Marcelo utiliza elementos como crucifixos, livrinhos embrulhados com fita, colheres, santa de devoção, conchas, dentes aplicados, enfim, materiais e objetos sem parentesco, que se irmanam através da encáustica, da têmpera, do tratamento com ouro e se tornam unos em sentido e múltiplos em significados.

.......Em "Objeto Litúrgico - das Invenções humanas", o que se vê é uma caixa vazada, com elementos colados em suas faces, tendo no seu interior um cilindro sonoro, como o das bonecas antigas. Na face superior, uma enorme cabeça de boneco orienta uma hipotética direção da caixa cúbica e, na face oposta pequenas pernas, desproporcionais em relação à cabeça, flutuantes sobre a ponta dos pés, como se não houvesse peso sustentado, completam as disparidades harmônicas no paradoxo criado por Marcelo Frazão.

.......O "Cubo Litúrgico de Eros e dos Elementos" possui diferentes cores nas suas faces. Todas simbólicas. Aqui o vermelho é o elemento feminino, oposto, por exemplo ao que Franz Marc recomendava no Movimento do Cavaleiro Azul, em que o vermelho era a matéria animal e o azul, o espiritual e masculino. Mas o símbolo é arbitrado e Marcelo dá ao vermelho o significado feminino, passional, aquecendo o seu objeto litúrgico, que revela, nas outras faces, cores como o azul, que ele atribui à água, o marrom, à terra, o verde claro à vida, além do amarelo e do verde bandeira. Há peixes e pérolas, crucifixos, lagartixas, animais heteromorfos, enfim, toda uma vasta apropriação de elementos simbólicos. No interior do cubo, doze guizos presos às faces internas emitem um som suave sempre que o cubo é girado. A conjugação dos sentidos: o ver, o tocar e o ouvir. A busca de uma arte total.

.......Mas há muito mais para se contemplar e refletir. Há objetos pré-litúrgicos, como corpetes e máscaras, elementos que estão em trânsito para "tornarem-se", que aguardam o advento de uma nova experiência poética de seu artista para fazerem parte efetiva da liturgia. Enfim, o que mais se pode acrescentar ao que nos apresenta Marcelo Frazão? Talvez a resposta já tenha sido dada, quando em 1917, Iwan Goll escreveu o seu "Apelo à Arte". Quem sabe visualizasse as essências que se entificariam nos cubos e nos quadros de Marcelo?

......."E tu, poeta, não tenhas vergonha de tocar a tuba que é causa de escárnio.
Vem com grande estrondo. Aniquila com fúria as nuvenzinhas da fantasia romântica, arremessa o raio do espírito sobre a multidão. Desiste das aberrações delicadas e dos desenhos fáceis dos dias chuvosos e das belezas do crepúsculo.
É de luz que precisamos: luz, verdade, idéia, amor, bondade, espírito!
Canta hinos, vocifera manifestos, faz programas para o céu e para a terra. Para o espírito!
Artista, oferece-nos o teu coração magnânimo. Vai com as tuas asas para o meio do povo apático e pobre. Entra nos quartos abafados das jovens mães, nos hospitais sacudidos pelos gritos, cheios de moribundos, tu, todo esperança, entra no cárcere onde falta o ar, nas casernas pisoteadas pela ira, nos palácios da justiça e nos asilos de velhos.
Sorri sempre e perdoa, como o anjo, o incógnito. Quanto piores e mais fundos e abafados eles forem, mais belo, mais alto e mais clarão seja o teu canto.
Artista, ama!" .............................................(Iwan Goll, 1917).


Angela Ancora da Luz
Historiadora e Crítica de Arte
Diretora da Escola de Belas Artes da UFR
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