Introdução aos meus OBJETOS LITÚRGICOS

A série que apresento no Espaço FURNAS Cultural é diferente das anteriores, não sei se por inquietação, medo de ser repetitivo, inconformismo com a certeza das fórmulas ou pela profundidade e desdobramentos que os temas religiosos oferecem.

Não acredito que o trabalho plástico precise de uma bula para ser entendido, mas sem informações adicionais aquele que olha capta aquilo que sua realidade e vivências decodificam. Assim a emoção pode ser transmitida e o entendimento ou diálogo não passa necessariamente pelo racional. Mesmo assim quero informar sobre meus OBJETOS LITÚRGICOS - não que estas séries sejam herméticas ou conceituais. Réquiem, a série anterior, começou com a mistura de Mozart, a religião cristã, Freud, um pouco de filosofia e um roteiro a ser seguido.

O Cristianismo prega a vida após a morte, fundamentada na crença da alma. Por outro lado Freud procura desmistificar a alma propondo que ela não passa de um mecanismo de defesa do ego - o duplo. Não existe outra questão, inerente ao ser humano, que tenha sofrido tão poucas mudanças desde o início da evolução como a relação do binômio morte/vida. Dois fatores estão diretamente ligados a esta hipótese: a força da nossa reação emocional à finitude e a insuficiência do nosso conhecimento científico a respeito dela. Podemos ainda questionar: existe diferença entre morte e o ato de morrer? A partir destas reflexões surgiu a série sobre o Requiem de Mozart - começou aqui uma procura que permite muitas respostas.

Para chegar aos OBJETOS LITÚRGICOS não é pré-requisito uma passagem pelo Requiem mas sem esta pequena introdução a leitura não seria completa - não que os objetos estejam ligados à morte, é justamente o contrário: é a finitude o motivo intrínseco de muitos dos objetos do nosso cotidiano - uns nos afastam de nossa condição animal outros nos aproximam do criador. Um fator de acréscimo é o erotismo, embora este ingrediente passe despercebido mesmo quando estudamos a morte. A primeira vista os temas são bem antagônicos, mas quando se analisa um raramente não vemos as áreas de interseção, estão sempre de braços dados. Eros e Tanatos. Conta a mitologia grega que Venus foi procurar um oráculo para saber por que Eros não crescia e a resposta foi : "Para que o Amor cresça, ele precisa de um irmão" - Tanatos, a morte. São muitas as afinidades entre o erotismo - força criadora que perpetua as espécies - e a finitude, também comum a todas.

Nos OBJETOS LITÚRGICOS a liberdade é total, o sentimento religioso é revelado como uma verdade filosófica e como toda verdade passível de ser analisada e confrontada a outras. Acredito que verdades dependem sempre de um certo ponto de vista e uma vez deslocado este ponto, toda a perspectiva se altera. Este é meu intuito: juntar estes pontos e tentar fixá-los, - mesmo que no fim as perguntas continuem sem respostas.


Marcelo Frazão
Rio, setembro
de 2005